Vivo tropeçando em mim mesma. Mas quem não se tropeça? Quem não precisa se perdoar todos os dias?
É que tem dia, que a gente cansa de ser a gente mesmo, de tropeçar sempre nos mesmos lugares, de descumprir sempre as mesmas promessas. Ainda bem que a vida é mais teimosa que a gente.
Outros dias, de menos cansaço e mais tristeza poética, a gente se sente poeira no mundo, pairando sem tomar prumo da própria rota. E não somos todos poeiras de Deus? Deve haver algo de muito bom nisso, porque de repente a gente se sente importante, aquela única nota da melodia tão inerente à perfeição da obra. Vai ver, a sabedoria da vida pulsa oculta nas minúsculas partes do todo.
Muitas vezes a noite se instala em mim e nada do que sou ou do que tenho me preenche. São lacunas de algo que não sei por onde anda, peças de um quebra cabeça que só Deus conhece; vazio.
Talvez por isso esteja fadada a sofrer da síndrome do caramujo. Gosto de viver dentro das ilimitadas possibilidades do meu universo particular, da minha casa de caramujo. Não me importo, geralmente não faço questão de colocar a cabeça pra fora e espiar o mundo.
Vez em quando quero ser borboleta, mas me falta coragem. Quem sabe é preguiça mesmo, ser borboleta dá muito trabalho; mais fácil ser caramujo.
Não sei em que momento se estabeleceu a rota de fuga. Em certos momentos ela é a única forma de sobrevivência. De repente a gente se acomoda, vai se permitindo ser como é...
Creio que em algum ponto, a vida deixa de ser o fruto consciente de nossas escolhas para ser o resultado da nossa permissividade. Deixamos de incorporar o agente de nosso destino e nos colocamos na posição, talvez aparentemente confortável, do receptor passivo. Deus
não criou ninguém pra ser caramujo. Viver é um verbo de ação, é colocar os pés pra fora da porta e caminhar, ainda que nu, descalço e cambaleante. A vida é urgente.
Todos temos nossos momentos necessários de recolhimento, de pausa para um refazer-se, reconstruir-se. Às vezes não adianta tapar buracos, tem que derrubar as paredes para levantar novas. Cada qual e cada coisa no seu tempo. Há reformas que exigem muito mais de nós e são tão necessárias quanto respirar. Olhar-se no espelho não dói, desde que nele se reconheça, não talvez, a alegria da vitória, mas a paz que repousa na certeza de ter feito tudo que pôde.